Como funcionam

Uma infecção por um determinado microrganismo provoca reacções de dois tipos. Primeiro uma reacção imediata, também chamada imunidade inata, em que a partir do tecido lesado são segregadas substâncias químicas que vão ajudar a desencadear uma reacção de defesa, activando células dos tecidos e chamando ao local células do sangue que têm por função destruir ou enfraquecer o organismo invasor.

Esta reacção inata, se bem que fundamental, não é específica para cada tipo de doença, nem sempre é suficientemente eficaz, nem induz memória imunológica. O segundo tipo de reacção (chamado imunidade adquirida ou adaptativa) surge mais tardiamente, mas é dirigido especificamente contra aquele agente, através da produção de proteínas específicas, chamadas anticorpos, que vão reagir com as proteínas (antigénios) do agente infeccioso, impedindo a sua multiplicação e promovendo a sua destruição. Para além disso vão ser activadas as chamadas células de memória, que vão permitir que o organismo reconheça e produza mais rapidamente anticorpos específicos, sempre que entrar novamente em contacto com aquele agente.

Podemos comparar estes dois tipos de reacção com o que se passa num incêndio de floresta. A primeira linha de defesa são geralmente os populares, que atacam o fogo com paus e baldes de água, limitando a sua propagação e conseguindo até, em certos casos, extingui-lo completamente. Mas se o incêndio for de grandes proporções, esta primeira linha de defesa é ineficaz, e há necessidade da intervenção especializada dos bombeiros que, embora cheguem mais tarde ao local do sinistro, têm meios de o controlar. Se tivéssemos um corpo de bombeiros a postos no local, sempre que se inicia um incêndio, não haveria problemas com os fogos.

As vacinas são uma maneira de ter disponível este “corpo de bombeiros”, ou seja, os anticorpos específicos, sempre que um micróbio pretende invadir o organismo. A maneira de o conseguir é pôr o nosso organismo em contacto com os agentes infecciosos, de modo a que os reconheçam e induzam a tal memória imunológica, sem causarem doença. Sempre que um indivíduo entra em contacto com o microorganismo contra o qual foi vacinado, o seu organismo reconhece o referido agente,” recorda-se” dele e activa imediatamente a produção de anticorpos protectores, de modo a neutralizarem o microrganismo antes de ele ter tempo de causar doença.

Há várias maneiras de conseguir estes objectivos: utilizando microrganismos mortos ou algumas partes dos microrganismos que são suficientes para serem reconhecidas pelo sistema imune (vacinas mortas ou inactivadas); utilizando microorganismos vivos mas enfraquecidos e incapazes de causar doença (vacinas atenuadas); ou usando substâncias causadoras da doença (toxinas) segregadas pelo microrganismo, depois de inactivadas (toxoides).

Algumas destas vacinas necessitam de substâncias denominadas adjuvantes, que têm por efeito ajudar a aumentar a resposta do sistema imune.

A maior parte das vacinas ajuda a proteger não só o indivíduo vacinado mas também a própria comunidade, desencadeando a chamada “imunidade de grupo”, ao diminuir o número de pessoas susceptíveis à doença, interrompendo assim a circulação do microrganismo nessa comunidade.

As vacinas permitiram já a erradicação de uma doença terrível, a varíola, e estão prestes a conseguir a eliminação de outra doença, a poliomielite. Nenhuma medida, à excepção do fornecimento de água potável às populações, contribuiu tão decisivamente para a melhoria da saúde pública como as vacinas!

Dra. Paula Valente
Unidade de Infecciologia Pediátrica, Hospital de Santa Maria, Lisboa