Na criança

As infecções provocadas pelo Streptococcus pneumoniae (SP), pneumococo, são causa importante de morbilidade e mortalidade em todo o mundo, especialmente em crianças com idade inferior a 2 anos, idosos, e determinados grupos de risco, estimando-se que seja responsável por cerca de 1 milhão de mortes por ano, na criança.

O pneumococo é uma bactéria gram+, a sua cápsula polissacárida é o determinante fundamental da sua patogenecidade. As diferenças entre o polissacárido capsular permitem classificar o pneumococo em 91 serótipos que diferem na capacidade de colonização e transmissão, virulência, idade em que predominam, manifestações de doença, resistências aos antibióticos, distribuição geográfica, capacidade para causar doença endémica ou surtos. Cerca de 12 a 15 serotipos causam a maioria dos casos de doença na criança

O principal reservatório do pneumococo é a nasofaringe das crianças, estimando-se uma taxa de colonização de 62% aos 2 anos de idade. Os portadores são a fonte principal de transmissão da bactéria. A colonização nasofaríngea pode não dar sintomas, ou ser o ponto de partida para infecções respiratórias como otite média aguda (OMA), sinusite e pneumonia, ou para infecções invasivas de maior gravidade como a bacteriémia, septicemia, meningite, artrite, osteomielite e endocardite.

Os factores de risco para uma pessoa desenvolver doença são: idade inferior a 2 anos, estar numa creche, baixo nível socioeconómico, viver em locais com elevada densidade populacional, sofrer de uma doença de base como imunodeficiência, infecção VIH, doença do sangue, não ter baço, ou ter uma infecção viral nos dias anteriores. O aleitamento materno, nas crianças abaixo dos 6 meses, protege da doença invasiva pneumocócica.

Outro problema adicional é a emergência de pneumococos resistentes, não só à penicilina como a outros antibióticos (multirresistência), inicialmente descrita em meados dos anos 60, e que sofreu um incremento marcado nos últimos anos, que veio colocar problemas adicionais de tratamento.
Apesar da instituição precoce e correcta de antibioticoterapia a taxa de mortalidade e de sequelas na meningite pneumocócica é elevada (surdez, epilepsia, atraso psico-motor).

Estes problemas vieram confirmar a necessidade do desenvolvimento de uma vacina eficaz e segura que reduzisse de forma significativa a doença pneumocócica na infância.

As primeiras vacinas desenvolvidas na década de 70 foram as vacinas polissacáridas.

A vacina polissacárida (VPP), composta por 23 serótipos, não é imunogénica nas crianças com idade inferior a 2 anos, grupo em que ocorrem 80% dos casos de doença invasiva grave. Não erradica o SP da nasofaringe, não conferindo imunidade de grupo. Tem uma eficácia de 60 a 70% na prevenção da doença invasiva pneumocócica em crianças com mais de 2 anos, sendo menos eficaz na prevenção da pneumonia.

Vários estudos confirmam a eficácia, segurança e imunogenicidade da vacina pneumocócica conjugada, induzindo imunidade dependente das células T e portanto memória imunológica, redução da colonização da nasofaringe por SP induzindo imunidade de grupo, prevenção da doença invasiva (eficácia >90%), com impacto na redução da OMA e da pneumonia causadas pelos serótipos incluídos na vacina, tanto em crianças saudáveis como em crianças pertencentes a grupos de risco.

Dra. Filipa Prata
Unidade de Infecciologia Pediátrica, Hospital de Santa Maria, Lisboa